Analyse institutionnelle : Théorie et pratique au sein des institutions politiques, éducatives et de recherche. L'implication des individus et des groupes dans la vie politique et sociale.
O Biográfico E Seus Diálogos Com A Interculturalidade Como Práxis de Comunidade
Lúcia Ozório
“A gente vai contar as histórias das rezadeiras, das criadoras de porco, das verdureiras, da gente daqui. A Mangueira está precisando disso. [...] Tem [...] aí toda a comunidade que ninguém conhece.” (Celso, morador da comunidade da Mangueira)
Como explorar as virtudes nômades da comunidade? Esta demanda de um lugar, a comunidade da Mangueira, expressa por Celso, afirma um querer comum (Agah, 2001): a narraçăo das experiências dos que vivem o mar revolto da diáspora cultural e política atravessada por desigualdades que sustentam o privilégio de poucos e requerem a miséria de muitos. Trata-se de uma história diferente da que se quer oficial, da minoritária história que marca ato insurgente da traduçăo cultural (Ozório, 2004; 2005). É história com embates próprios às fragilidades das fronteiras, notadamente as do centro e da periferia, que apontam para a problemática da diferença, cuja articulaçăo sócio-política, da perspectiva da periferia é complexa e habita os campos dos híbridos (Bhabha, 2003).
Estas narrativas, exercício de uma contra-memória, buscam afirmar outros espaços-tempos, os das cidades invisíveis de que fala Calvino (1990), aquelas que năo săo mas podem vir a ser, insistindo em dar forma aos seus desejos. Na demanda de Celso, morador da Mangueira, há uma inquietação: como dar condições para se transmitir e narrar as histórias destes espaços do aproximativo (Santos, 1998)? Ou melhor, num mundo pobre em experiências, fato apontado por Benjamin (2000; 2000-a) já na sua época, como dar condições para que a vivência (erlebnis) possa se constituir em experiência (erfahrung)?
Interculturalidade Como Práxis de Comunidade
O entendimento de comunidade como práxis (Agah, 2001) implica numa compreensão da existência, ela mesma, como um com-partilhar. Neste sentido diz-se de um comum que se faz e está sempre em vias de se compreender. Pode-se falar de um processo em que partilha-se o que não é comum, ou melhor, o que é em comum (Ozório, 2005; 2005a). A comunidade como práxis supõe então um modo de lidar com a diversidade, “ ... feito de procedimentos de inclusão do excluído e de colocar em comum o não comum.” ( Rancière, 2003 : 87). Temos assim um tecido heterogêneo, pluri-referenciado do comum, que se por um lado lida com as diferenças sem hierarquizá-las, sem hipertrofiá-las ou indiferenciá-las, por outro intervém numa certa compreensão de comunidade como substância, como interioridade, protagonista de proposições identitárias (Nancy, 2001). Vale retomar a compreensão marxista do comum que diferencia cuja práxis busca evitar confusões e indiferenciações ambíguas. No comum tem-se visibilidade maior da hegemonia de determinadas forças e formas como também dos movimentos de não-conformidade de muitas outras (Marx, 1997; Lefebvre, 2000).
Os embates das diferenças em jogo na práxis comunitária favorecem por um lado uma desconstrução da mítica da boa comunidade e por outro encontram ressonâncias nas tramas da cultura que com seus percursos, passagens e paradoxos hibridam e reviram confins e limites da política. Um comum experencial, intercultural que se faz aponta para entre-lugares nos quais algo começa a se fazer presente. Trata-se de interferências de experiências entre-culturas, numa práxis de comunidade que explicita artimanhas, diversas, contra a/da exclusão. A cultura neste sentido subverte um multiculturalismo etnocêntrico, disseminado pela globalização liberal, que quer, desde a perspectiva marxista, inverter a apresentação do real, dissimular suas tensões, contradições (Lefebvre, 2000; Bhabha; 2003; Ozório, 2005). Falamos pois de diálogos entre culturas, da interculturalidade que cuida das mundovisões, de mundos de vidas que querem conhecer e se fazer conhecer, uma singularidade da ação em comum. São diálogos através das histórias orais de vida, que partilham a vida, as experimentações de vida comumente.
Narrativas Orais Em Comum da Diáspora Cultural e Política dos Irredutíveis do Capital
Frente ao capitalismo que desqualifica, buscamos a cidade que fala de várias maneiras, notadamente fala com as experiências das comunidades pobres (Ozório, 2005; Vilhena et alli. 2005). Propomos pensar a cidade pelos seus desejos (Calvino, 1990), pelo contato-experiência-cultura, testemunhos de um tempo e de modus vivendi no tempo.
Nesta problemática da diversidade, as fronteiras enunciativas entre-culturas se fazem presentes. Celso, morador da Mangueira, citado no início deste artigo, nomeia o desejo do lugar de resgatar a potência das fontes populares da narratividade. Quer trazer para a cidade as histórias das verdureiras, das rezadeiras, das criadoras de porco, da gente do lugar. Propõe a práxis de um em comum que inclui no global, o local com sua diferença. No local o mundo se movimenta e expõe suas tensões (Santos, 2001), suas histórias. Celso quer dar visibilidade a estes testemunhos de mundo, as narrativas comunitárias da diáspora cultural e política dos irredutíveis do capital. Esta terminologia é de Lefebvre (2000). Os irredutíveis são potências num mundo de potências especializadas. A afirmação da potência da gente da Mangueira, através de suas histórias, proposta por Celso, explicita um querer comum que abre um povo em direção a outro. Inclui a comunidade pobre no mundo, não num processo de exclusão mas num processo comum, intercultural. A articulação socio-política da diferença, desde a perspectiva dos irredutíveis, na problemática do comum é complexa e pode implicar em riscos, os da cidade partida e seus perigos por se estar do lado de lá, ou seja, com as classes perigosas (Coimbra, 2001, Vilhena et alli. 2005).
Falamos de narrativas comunitárias, ou seja, de transmissões possíveis pela via do compartilhamento que ao dar ressonâncais às vivências dos irredutíveis transformam-nas em experiências. A experiência é a vivência que se abre ao outro, com-porta na sua práxis um ato migratório que não sabe onde vai chegar. Celso fala da comunidade que “... ninguém conhece.” Mas quer se fazer conhecer e conhecer. Com isto desenha as condições da transmissão de um comum experencial, intercultural, cuja trama possibilita a escrita de uma história não do ponto de vista dos sedentários, mas dos nômades, sem preocupação com as sociedades de espetáculo, as unanimidades ou unidades. Trata-se de uma história que não aspira à perfeição, à estabilidade, à verdade (Bakhtin, 2003) e estabelece uma proximidade com a arte de fazer, quotidiana, emergente dos interstícios destes lugares de mundo (Certeau,1990).
As narrativas da diáspora dos irredutíveis acontecem de um modo: através de suas histórias orais de vida narradas em comum, dispositivo que dá acesso a este comum, experencial, intercultural que se faz no momento da narração. Uma hermenêutica do com-preender junto atesta uma comunicação possível que Levi (1997) denomina comunidade de comunicação, enfatizando o ato dialógico na vida que é contada em comum. Se há uma dimensão subjetiva da experiência que escapa à pura objetividade, há também a práxis de sua hibridização pelo comum que se faz no quotidiano do momento desta experiência narrativa, que tem muitos narradores, muitas histórias que se constróem em comum, evidenciando que o comum como experiência pode funcionar como designação liberadora, não substancial. A atividade biográfica como processualidade psico-sociohistórica abre vias à modos da diversidade e mostra a força deste comum, experencial, intercultural como dispositivo significativo na construção da realidade sócio-política (Delory-Momberger, 2003; Ozório, 2005; 2005a; 2006).
Se o desejo de Celso de contar as histórias do lugar desenha um rosto da práxis intercultural, o do conhecer e se fazer conhecer, marca, por outro lado, um dos fundamentos das histórias orais de vida: o desejo de reconhecimento. O lugar quer uma história que dê importância à durabilidade, às conseqüências de suas ações, à eternidade (Bauman, 2003) e que também forje outros caminhos em comum, abrindo suas histórias à cidade, ao mundo.
Silvina, outra moradora da Mangueira, num momento da práxis da narração em comum se alia à proposta de Celso e conta a vida em comunidade: “[...] então é essa cumplicidade que eu tô te falando [...] Essa cumplicidade é que fortalece; nós seríamos dizimados com certeza sem isso aí. O poder público não está nem aí pra gente [...]” (Ozório, 2006 : 67). Seu José, também morador da comunidade, compartilhando este momento de narração com Silvina conta que “ [...] a Mangueira recebeu uma grande população de uma outra favela [...] que se chamava Favela do Esqueleto, que era onde a UERJ é hoje. [...] teve gente que fugiu, não quis ir para a Vila Kennedy. O pessoal que amava e que ama o local [...] 40% da Mangueira é de pessoas oriundas do Esqueleto, então é onde houve uma cumplicidade de amor [...]” (Ozório, 2006 : 70).
Nestes relatos em comum, os participantes do lugar re-fazem o passado, o seu, o do lugar, o da cidade, num espaço-tempo, o da narração em comum que explicita o drama e a trama da diversidade, mostrando a potência de um calor vivo que a práxis do em comum provoca. Temos uma memória exercitada como diferença no presente, em comum, intervindo na historicidade de nossos dias, muito beligerante.
Bibliografia
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Article publié sous la référence : Ozório L. O Biográfico E Seus Diálogos Com A Interculturalidade Como Práxis de Comunidade. Revista Polêmica n. 20, 2007 ISSN 1676-0727.
http://www.polemica.uerj.br/pol18/polemica_18.htm